O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MP do RN) cobrou providências urgentes da Prefeitura de Mossoró para a recuperação das ruas do bairro Alto do Sumaré, em uma recomendação expedida nesta sexta-feira, 15/05/2026. A medida, que joga luz sobre o abandono de vias na cidade, expõe um grave contraste com o discurso de Allyson Bezerra, ex-prefeito de Mossoró, que atualmente critica a infraestrutura estadual em sua pré-campanha ao Governo do Estado. A atuação do MP do RN visa garantir a dignidade dos moradores, que convivem desde 2021 com buracos, erosões, lama e dificuldades de acesso, prejudicando veículos e expondo pedestres a riscos.
A iniciativa integra o Inquérito Civil nº 04.23.2022.0000018/2026-92, conduzido pela 2ª Promotoria de Justiça de Mossoró, sob a responsabilidade da promotora Ana Araújo Ximenes. Moradores do Alto do Sumaré formalizaram as denúncias ao Ministério Público, detalhando a situação crítica das vias, consideradas intrafegáveis, com sérios danos a veículos e perigos iminentes para quem transita ou reside no local.
Durante a apuração do inquérito, a própria Secretaria Municipal de Infraestrutura (SEINFRA) realizou uma vistoria técnica no bairro e confirmou a existência de graves irregularidades, especialmente na Rua Enéas da Silva Negreiros. O parecer técnico anexado ao processo é categórico ao afirmar que a situação não será resolvida com medidas paliativas. O documento aponta a necessidade urgente de uma “intervenção corretiva planejada”, que inclui a reconstrução integral das vias, regularização da base e a recomposição completa da pavimentação.
O caso ganha notoriedade no momento em que a Prefeitura de Mossoró, sob a gestão de Allyson Bezerra, destinou vultosas quantias para obras de pavimentação. Dados oficiais do Portal da Transparência revelam que as despesas com pavimentação de avenidas e ruas somaram aproximadamente R$ 9,3 milhões em 2021; R$ 32,9 milhões em 2022; R$ 23,6 milhões em 2023; R$ 69,2 milhões em 2024; e mais R$ 16 milhões em 2025. O total investido nos cinco anos ultrapassa R$ 151 milhões, levantando sérios questionamentos sobre a persistência de ruas em estado crítico em bairros periféricos como o Alto do Sumaré, apesar dos recursos aplicados.
Os números oficiais também contrastam com o discurso público adotado por Allyson Bezerra durante seu mandato. Em 2022, o então prefeito divulgou que os investimentos em pavimentação alcançariam cerca de R$ 47 milhões naquele ano, listando o Sumaré entre os bairros beneficiados. Contudo, informações do Portal da Transparência do Município indicam que as despesas liquidadas com pavimentação em 2022 foram de aproximadamente R$ 23,6 milhões, representando quase a metade do valor anunciado.
Essa discrepância entre as declarações políticas e os dados oficiais intensifica as dúvidas sobre a eficácia dos investimentos, especialmente diante do quadro agora exposto pelo Ministério Público. Enquanto a gestão de Allyson Bezerra alardeava melhorias, os moradores do Alto do Sumaré relatam anos de convívio com lama, erosões e ruas que parecem intransitáveis.
O desgaste político se aprofunda porque a cobrança do Ministério Público surge exatamente quando Allyson Bezerra viaja pelo Rio Grande do Norte, apresentando-se como a solução para os problemas de infraestrutura do estado. Em entrevista à rádio 105 FM, em Ceará-Mirim no mês passado, o pré-candidato ao Governo do Estado classificou a situação das estradas potiguares como uma “calamidade” e prometeu recuperar rodovias na região metropolitana, incluindo a duplicação da BR que liga Ceará-Mirim ao aeroporto e a reconstrução da estrada entre Ceará-Mirim e Extremoz.
“O problema das estradas é muito crônico. Estamos chegando em muitas cidades e a situação é uma calamidade”, declarou o ex-prefeito. Entretanto, essa fala colide com a realidade revelada pelo Ministério Público em Mossoró. Enquanto Allyson critica a precariedade das rodovias estaduais e promete obras no RN, os cidadãos do Alto do Sumaré denunciam anos de abandono e ruas impraticáveis dentro da cidade que ele administrou até março deste ano.
A situação é ainda mais sensível porque não se trata apenas de relatos de moradores. A própria Secretaria Municipal de Infraestrutura, por meio de seu parecer técnico anexado ao inquérito, reconheceu a gravidade dos problemas nas vias do bairro, admitindo que apenas operações paliativas são insuficientes e que a reconstrução completa da pavimentação é essencial.
No documento, o Ministério Público fundamenta sua atuação no dever constitucional do poder público de garantir infraestrutura urbana adequada. O órgão ainda cita o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no Tema 698, que estabelece que a falta de recursos não justifica a omissão prolongada do Estado diante da violação de direitos fundamentais da população.
Este episódio atinge diretamente a estratégia política de Allyson Bezerra para expandir sua influência estadual. Apesar de ter deixado a Prefeitura em março deste ano visando a disputa pelo Governo do Estado, o cenário desvelado pelo Ministério Público intensifica as críticas sobre problemas estruturais que se acumularam nas áreas periféricas de Mossoró durante sua gestão, impactando diretamente a qualidade de vida dos cidadãos.




