
Quase três quartos dos lares brasileiros estão desconfortáveis com a sua situação financeira, e pouco mais da metade (54%) está no limite para virar insolvente. Nesse grupo de famílias inseguras com a própria condição, um quinto dos domicílios já está endividado ou com contas em atraso e, dessa parcela, quase 25% moram em cidades do Nordeste, principal reduto eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao mesmo tempo, no campo oposto, um quarto dos lares afirma estar em situação confortável financeiramente, e o maior percentual dessas casas está no Sul do Brasil (23%) e em Minas Gerais, Espírito Santo e no interior do Rio de Janeiro (20%), locais onde o poder de consumo é mais elevado do que a média nacional.
Os dados foram coletados em 2025 pela empresa de pesquisas NielsenIQ (NIQ) para o levantamento Homescan, um dos mais tradicionais do segmento, que obtém dados periódicos em 8,2 mil lares no país. Apenas 1 a cada 100 lares brasileiros afirma estar muito confortável com suas contas.
“Em relação às regiões, o destaque é a maior representatividade do Nordeste entre os lares mais impactados”, diz Gabriel Fagundes, diretor da NIQ, observando que o consumo na região cai a um ritmo superior ao da média do país nos últimos 15 meses, em termos de volume.
Fábio Bentes, economista-chefe da CNC, a Confederação Nacional do Comércio e Serviços, reforça que o Nordeste acaba no radar porque inclui áreas com renda mais baixa, penalizadas num cenário de piora do quadro macroeconômico, pressionado pelo crescimento do endividamento e da inadimplência desde 2025 e, agora, pela recente aceleração da inflação de alimentos.
Levantamento do Valor feito com base na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE mostra que, no acumulado de 12 meses até março, cinco dos dez Estados com menor crescimento em vendas, em volume, estão no Norte e Nordeste do país — Piauí, Tocantins, Amazonas, Roraima e Pará.
Pelo estudo da NIQ, consumidores com menor renda (até dois salários mínimos) destinam mais de 60% dos ganhos para alimentos e itens de higiene. Já na renda intermediária, há pressão crescente de despesas domésticas: contas do lar passaram a absorver mais de 50% do gasto nas famílias com rendimento de três a cinco salários mínimos.
Valor Econômico, por Adriana Mattos

