Quando o licenciamento ambiental da engorda de Ponta Negra era questionado, o ex-prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (UNIÃO) não se pronunciou. Quando surgiram disputas judiciais, denúncias e alertas de especialistas sobre riscos e falhas no projeto, também não. A crítica pública do prefeito de Mossoró à obra veio apenas agora, depois que os problemas de drenagem e os alagamentos na faixa de areia transformaram o principal cartão-postal do Rio Grande do Norte em notícia nacional.
Em vídeo publicado nas redes sociais nesta semana, Allyson afirmou que o problema da intervenção em Ponta Negra não foi a engorda da praia em si, mas a forma como a obra foi executada. Citando apontamentos do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU), o ex-prefeito falou em “drenagem falsa”, galerias bloqueadas, riscos ambientais e desperdício de recursos públicos.
“Não se engana a natureza e principalmente não se engana o povo”, declarou o gestor mossoroense, que desponta entre os nomes cotados para disputar o Governo do Estado em 2026.
A manifestação, entretanto, chama atenção pelo momento em que ocorre.
A obra de engorda de Ponta Negra esteve no centro de um dos debates públicos mais intensos dos últimos anos no Rio Grande do Norte. O empreendimento foi alvo de sucessivos questionamentos envolvendo licenciamento ambiental, impactos sobre o Morro do Careca, intervenções na área costeira, ações judiciais, recomendações de órgãos de controle e divergências entre especialistas sobre aspectos técnicos do projeto.
Ao longo desse processo, pesquisadores, entidades ambientais, Ministério Público e setores da sociedade civil travaram uma disputa pública em torno da obra. A discussão extrapolou os limites da engenharia e passou a envolver questões relacionadas à preservação ambiental, à transparência administrativa e ao planejamento urbano da capital.
Apesar da dimensão do debate, Allyson Bezerra não ocupou espaço relevante nessas discussões. Não houve manifestações públicas de destaque quando o licenciamento era contestado, quando as ações judiciais buscavam interferir nos rumos da obra ou quando especialistas levantavam preocupações sobre seus impactos e condicionantes técnicas.
Agora, com imagens de alagamentos circulando nacionalmente e relatórios apontando problemas na drenagem da área aterrada, o ex-prefeito passou a fazer críticas contundentes à condução do empreendimento.
A mudança de postura levanta uma questão política inevitável: por que o silêncio diante dos alertas e controvérsias que acompanharam a obra desde sua concepção e a manifestação apenas quando os problemas já estão instalados e amplamente expostos?
No vídeo, Allyson afirma que uma obra dessa magnitude deveria ter resolvido primeiro o sistema de drenagem antes da ampliação da faixa de areia. Também critica o que classifica como falhas de planejamento e execução, além de citar prejuízos para o turismo e para a imagem do estado.
Parte das críticas apresentadas agora, porém, dialoga com preocupações que já eram levantadas durante a execução da obra. Os debates sobre drenagem, impactos ambientais, licenciamento e fiscalização não surgiram com os recentes alagamentos. Eles acompanharam diferentes fases do projeto e motivaram embates públicos que se estenderam por meses.
Nesse contexto, a manifestação do ex-prefeito de Mossoró se insere também no cenário de disputa política que antecede as eleições de 2026. Ao assumir posição crítica diante de um problema que ganhou grande visibilidade, Allyson amplia sua presença em um debate que já mobilizava instituições, especialistas e agentes políticos muito antes da crise atual.
Mais do que discutir a validade das críticas feitas agora, a questão que permanece é outra: qual foi o papel das lideranças políticas diante dos alertas apresentados ao longo dos últimos anos?
A resposta ajuda a compreender não apenas os problemas enfrentados atualmente em Ponta Negra, mas também como atores que pretendem governar o estado se posicionam, ou deixam de se posicionar, diante de temas de grande interesse público enquanto eles ainda estão em disputa, e não apenas depois que seus efeitos se tornam evidentes.
Ao concentrar sua fala nos problemas já materializados, o vídeo de Allyson Bezerra deixa de abordar um aspecto central da história da engorda: o longo percurso de controvérsias, questionamentos técnicos e disputas institucionais que antecedeu a crise atual. E é justamente nesse intervalo entre os alertas e a reação tardia que reside uma das questões mais relevantes para o debate público.
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