Política

Campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro disputam voto feminino decisivo

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As campanhas eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) definiram, neste ciclo eleitoral de 2026, o eleitorado feminino como ponto central de suas estratégias. A decisão emerge da constatação de que ambos os pré-candidatos enfrentam alta rejeição entre as mulheres, um contingente crucial de 82,8 milhões de votantes aptas. Conquistar esse grupo é vital para a vitória nas urnas, moldando não apenas o futuro político, mas também a atenção às pautas que impactam diretamente a dignidade e segurança das mulheres no Brasil.

As eleições de 2026 projetam um novo recorde de eleitoras. Dados divulgados em março pelo Tribunal Superior Eleitoral revelam que as votantes do sexo feminino representam 52,8% do total. Atualmente, 82,8 milhões de mulheres estão aptas a votar, superando os 73,9 milhões de homens. Este vasto contingente eleitoral tornou-se, para Lula e Flávio Bolsonaro, um fator determinante na disputa.

O desempenho de Lula entre as eleitoras registrou uma piora desde 2022. Um levantamento do PoderData, realizado entre 21 e 23 de março, indicou que a desaprovação do governo na parcela feminina alcança 58%, percentual que supera a desaprovação masculina, fixada em 55%.

Com a manutenção de Geraldo Alckmin (PSB) como vice na chapa de reeleição de Lula, a resposta do Palácio do Planalto para o engajamento feminino materializou-se na atuação da primeira-dama Janja Lula da Silva. O Poder360 revelou que, de 124 compromissos divulgados por ela entre outubro de 2025 e abril de 2026, 31 foram dedicados a pautas femininas.

Nos últimos meses, Lula tem exortado “homens que prestam” a combaterem a violência contra as mulheres. O presidente impulsionou a iniciativa de Janja para um Pacto Nacional Contra o Feminicídio, que articula propostas para os Três Poderes e inclui um endurecimento das regras em um novo pacote de medidas contra a violência feminina.

A urgência desta pauta reside na trágica elevação dos números de feminicídio no Brasil, que bateram recorde em 2025. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública revelam que 1.470 mulheres foram assassinadas por razões de gênero, uma média alarmante de 4 vítimas por dia no país, deixando um rastro de dor e impunidade.

Em março, Lula realizou seu primeiro pronunciamento em cadeia nacional em alusão ao Dia da Mulher. Na ocasião, o presidente enfatizou que a violência contra as mulheres não se restringe à esfera privada, divulgando as ações governamentais de combate ao feminicídio. Ele também defendeu a erradicação da escala 6 X 1 como política pública voltada às mulheres.

Neste ano eleitoral, o discurso configura-se como um aceno estratégico. O Poder360 já demonstrou que as iniciativas de Lula para o fim da violência contra a mulher servirão como ativos essenciais em sua campanha.

Contudo, Lula busca reformular seu tom em meio a declarações anteriores consideradas machistas. Em março de 2025, por exemplo, o presidente afirmou ter nomeado “uma mulher bonita” para a articulação política, referindo-se a Gleisi Hoffmann, com o intuito de aprimorar a relação com o Congresso. Em abril de 2025, ele se referiu à diretora do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, com o termo “mulherzinha”.

O governo, no entanto, exibe contradições notáveis.

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, assegurou que sua pasta executa integralmente o orçamento de R$ 79,2 milhões destinado ao enfrentamento da violência contra as mulheres. A declaração foi feita em 16 de dezembro de 2025, na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.

A persistência de índices elevados de violência, no entanto, sugere que os recursos, embora integralmente executados, permanecem insuficientes para reverter o cenário de vulnerabilidade feminina.

Apesar dos esforços para cativar o eleitorado feminino, a recente reforma da Esplanada resultou na redução da representatividade de mulheres no alto escalão do governo Lula, que passou de 10 para apenas 8 ministras.

Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio ainda mais complexo: o legado do sobrenome paterno junto às eleitoras. Em seu mandato como deputado, Jair Bolsonaro (PL-RJ) proferiu a chocante declaração de que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT) porque ela “não merecia”, o que resultou em condenação por danos morais. Durante seu governo, o ex-presidente nomeou apenas 2 mulheres entre 22 ministros, evidenciando uma lacuna na representatividade feminina em cargos de poder.

Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada em fevereiro, revelou que 54% das mulheres manifestam medo ou preocupação com a possível eleição de Flávio Bolsonaro, em contraste com os 38,4% que expressam sentimentos similares em relação a Lula.

Senador desde 2019, Flávio Bolsonaro foi autor de 56 projetos de lei focados em temas como armas, maioridade penal e novos crimes. A pauta feminina, no entanto, pareceu ganhar destaque em seu interesse apenas no último ano do mandato, com a apresentação do PL 1019 de 2026, que propõe a instituição da Política Nacional de Unidades de Pronto Atendimento à Mulher no SUS.

A votação do PL da Misoginia, que busca classificar o ódio e aversão às mulheres (misoginia) com o mesmo rigor legal do racismo, gerou desgastes significativos para o senador. Flávio Bolsonaro votou a favor do texto no Senado, mas, após críticas de colegas deputados e eleitores, afirmou que a votação era “uma grande armadilha do PT” para prejudicar sua imagem junto ao eleitorado feminino. A proposta, defendida por setores da esquerda, visa incluir a misoginia na Lei de Racismo (Lei 7.716 de 1989), conferindo a crimes motivados por essa conduta penas mais rigorosas, tornando-os inafiançáveis e imprescritíveis.

Recentemente, em um movimento controverso, Flávio Bolsonaro abdicou de apoiar sua aliada Soraya Santos (PL-RJ) na disputa por uma vaga no Tribunal de Contas da União. Isso ocorreu menos de uma semana após ele próprio tê-la lançado com o argumento de que uma mulher deveria ocupar o posto, levantando questionamentos sobre a sinceridade de seu compromisso com a representatividade feminina.

A escolha do vice de Flávio Bolsonaro desponta como um dos maiores pontos de tensão nas articulações da direita. A principal aposta do campo bolsonarista para conquistar o eleitorado feminino é justamente a indicação de uma mulher para a chapa.

O nome mais cogitado para a posição é o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), a quem Flávio Bolsonaro já se referiu como “sonho de consumo”. A congressista, embora tenha declarado sentir-se preparada, ressaltou que a decisão final não lhe pertence. Mais recentemente, contudo, ela voltou a afastar a possibilidade de integrar a chapa.

Com o recuo de Tereza Cristina, Flávio Bolsonaro intensificou as conversas com outras figuras femininas proeminentes, como as deputadas Simone Marquetto (PP-SP) e Clarissa Tércio (PP-PE). A inclusão de uma mulher nordestina na chapa almeja conquistar dois segmentos onde Lula detém vantagem significativa: o eleitorado feminino e os votantes da região Nordeste.

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