Será que está na hora do país eleger novos hinos de carnaval?

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O tema é polêmico, mas falo dele por saber que, embora muitos discordem de mim, não estou sozinho. Neste carnaval, alguns blocos e foliões têm defendido mudanças na festa, seja na postura de quem brinca, seja na seleção das músicas. É uma turma que defende, por exemplo, a festa sem assédio sobre as mulheres, sem marchinhas que soam ofensivas aos gays e sem fantasias racistas.

Quando surge esse tema, há, quase invariavelmente, uma divisão. Uma parte acha as demandas óbvias. O carnaval será melhor sem essas coisas. Um outro grupo reage, pensa que é exagero, falta de humor, excesso imperdoável em nome do politicamente correto. Cabeleira do Zezé, Teu cabelo não nega, fantasia de Nega Maluca, tudo isso é parte da cultura nacional, e reprovar é censura de gente chata. Já “assédio” parece um nome muito forte para a saudável cantada, argumenta parte desse grupo.

Saio da discrição e exponho minha opinião. Entro no debate. Estou do lado da primeira turma. Não conseguiria me divertir se estivesse em um bloco e tocasse Teu cabelo não nega. Sim, essa música faz parte de minhas memórias afetivas. Consegue me lançar para uma época em que, criança, dançava animado nos primeiros bailinhos a que fui. Mas era uma época em que eu não entendia a letra. Hoje, entendo e fico chocado. O narrador diz que deseja amar uma “mulata”, mas só porque sabe que não tem chance de “pegar” a cor dela, ou seja, de se tornar negro.

Ter consciência do absurdo dessa mensagem me impede de dançar alegremente essa música, me desculpem seus autores. Se ela foi composta em uma época em que o país era incapaz de notar e reconhecer seu racismo, está na hora de o país, mais consciente, eleger novos hinos. É possível dançar alegremente músicas que não ofendem um grupo étnico inteiro, ou as mulheres, ou os gays.

Muitas pessoas já me disseram que o politicamente correto nos reprime. Por causa de bandeiras assim, passamos a ter de controlar nossa fala, nossa forma de conviver com as mulheres, nosso repertório de piadas, a seleção musical que ouvimos no carnaval. No fim, não podemos “mais nada”.

Ora, respondo: ser corrigido é uma forma de aprender. Ouvir de alguém “Isso que você disse me ofende”, “Não encoste em mim porque eu nem te conheço”, “Essa sua fantasia passa uma mensagem racista” é receber uma lição sobre como o outro se sente. E, sinceramente, o desconforto da insegurança sobre o que é adequado dizer, fazer ou vestir é algo muito pequeno perto da agressão que cometemos quando agimos sem nos preocupar em como nossas falas, nossos atos, nossas fantasias afetam o outro.

Vale a pena ouvir esses grupos. Eles têm coisas a nos ensinar sobre nós mesmos. Sobre nosso preconceito, nosso machismo, nossa ignorância. São lições duras, das quais sempre tentamos fugir. Mas são necessárias.

Por Humberto Rezende

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