Novas mensagens da Vaza-Jato mostram diálogos de procuradora do RN sobre Ministro do STJ do RN

monica bergamo Novas mensagens da Vaza-Jato mostram diálogos de procuradora do RN sobre Ministro do STJ do RN

Por Mônica Bergamo na Folha 

A defesa do ex-presidente Lula protocolou no STF (Supremo Tribunal Federal) nesta sexta (12) uma petição com um novo pacote de mensagens que mostram procuradores discutindo a necessidade de “atingir Lula na cabeça” para “vencermos as batalhas já abertas” pela Operação Lava Jato.

A troca de mensagens ocorreu no dia 5 de março de 2016, um dia depois de Lula ser conduzido coercitivamente para depor na Polícia Federal.

Nos diálogos, obtidos pela Operação Spoofing de um hacker que invadiu celulares de autoridades, os procuradores falam ainda que, se tentassem “atingir ministros do STF” naquele momento, poderiam comprar brigas “com todos ao mesmo tempo”.

O melhor seria, segundo mensagem da procuradora Carolina Rezende, “atingirmos nesse momento o ministro mais novo do STJ [Superior Tribunal de Justiça]”, como já havia ocorrido. “Tá de bom tamanho”, diz ela.

Carol, como está identificada, integrava a equipe do então procurador-geral da República Rodrigo Janot.

ACUSAÇÃO LEVIANA CONTRA MARCELO RIBEIRO DANTAS 

Em dezembro do ano anterior, o ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, do STJ, ficou sob fogo cruzado da Lava Jato depois que Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, afirmou à PGR (Procuradoria-Geral da República) ter “ouvido” do então senador Delcídio Amaral que havia uma “movimentação política” para que seu pai obtivesse um habeas corpus por intermediação de um ministro de sobrenome “Navarro“. Navarro tinha sido nomeado meses antes para o STJ e era então o relator da Lava Jato na corte. Ele acabou sendo afastado do caso, sob pretexto de que havia sido voto vencido em decisões sobre a Lava Jato.

O ministro Felix Fischer assumiu a relatoria e votou invariavelmente a favor de todas as decisões dos procuradores da Lava Jato e do juiz Sergio Moro.

ALVOS PREFERENCIAIS DA GRUPO DE JANOT 

O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) também aparece como alvo preferencial dos investigadores.

Na fala, transcrita pelo escritório Teixeira Zanin Martins Advogados, que representa Lula, a procuradora Carol afirma:

“Pessoal, fiquei pensando que precisamos definir melhor o escopo pra nós dos acordos que estão em negociação. Depois de ontem, precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1), pra nós da PGR, acho q o segundo alvo mais relevante seria Renan.

Sei que vcs pediram a ODE [empreiteira Odebrecht] que o primeiro anexo fosse sobre embaraço das investigações.

Achei excelente a ideia mas agora tenho minhas dúvidas se o tema é prioritário e se é oportuno nesse momento.

Não temos como brigar com todos ao mesmo tempo.

Se tentarmos atingir ministros do STF, por exemplo, eles se juntarao contra a LJ, não tenho dúvidas.

Tá de bom tamanho, na minha visão, atingirmos nesse momento o min mais novo do STJ.

Acho que abrirmos mais uma frente contra o Judiciário pode ser over. Por outro lado, aqueles outros (lula e Renan) temas pra nós hj são essenciais p vencermos as batalhas já abertas”.

As grafias foram mantidas como na mensagem original.

No mesmo dia, segundo diálogos da petição enviada ao STF por Lula, os procuradores da força-tarefa combinam a divulgação de uma nota a favor do ex-juiz, questionado por determinar a condução coercitiva do petista.

Um dos procuradores afirma que ela era necessária para “não deixarmos um amigo apanhar sozinho”.

A procuradora Carol completa:

“Coitado de Moro.. Não ta sendo fácil.

Vamos torcer pra esta semana as coisas se acalmarem e conseguirmos mais elementos contra o infeliz do Lula”.

A defesa do ex-presidente afirma ainda, baseada nos diálogos, que a Lava Jato “atuava não apenas com o objetivo de devassar e produzir qualquer coisa”contra Lula, como ainda escondia “provas de sua inocência”.

Em uma das mensagens, procuradores da Lava Jato revelam que Paulo Dalmazzo, ex-diretor da Andrade Gutierrez, afirmara que Lula tinha feito uma palestra para a empresa e que saiu dela “ovacionado”.

“Não botei o termo”, diz um dos procuradores que investigava palestras dada a empresas pelo ex-presidente.

Os advogados de Lula obtiveram, no Supremo, autorização para acessar todo o material apreendido na Operação Spoofing, que investiga o hacker que invadiu celulares de autoridades de Brasília.

Ela foi concedida por meio de liminar do ministro Ricardo Lewandowski. Nesta semana, a 2ª Turma do STF confirmou a medida.

TL CONTA MAIS

Carolina Rezende é natalense, com familiares no Rio Grande do Norte, mas exerce o cargo de procuradora federal em Brasília,  integrou o núcleo do ex-PGR Rodrigo Janot, que se aposentou depois de ser envolvido em esquema que pretendia derrubar o então presidente Michel Temer em 2017. Temer o desagradou quando não renovou sua condição de chefe do Ministério Público Federal.

Já o Ministro Marcelo Ribeiro Dantas foi inocentado de todas as acusações feitas pelo filho do delator Nestor Cerveró. E hoje, mais uma vez, tem ainda mais provas que foi vítima de um complô que pretendia “limpar o Brasi da corrupção”, esquecendo preceitos básicos em qualquer democracia: o devido processo legal. Mais, esquecendo que Direito se faz com verdade, leis e provas. Ilações de pessoas que se acham acima do bem e do mal, alternando as funções dúbias de acusadores e condenadores, não são permitidos no nosso ordenamento jurídico.

A procuradora tem todo direito de na vida privada achar o ex-presidente Lula “um infeliz”, mas na teoria ela sabe que esse juízo de valor não pode interferir na condução de seu trabalho.

TL

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